terça-feira, 7 de setembro de 2010

Randi Danielsen - Uma Palinóloga ao Serviço da Arqueologia Portuguesa

Randi Danielsen doutorou-se em Biologia, especialidade em Palinologia pela Universidade do Minho em 2009. Foi recentemente integrada no Laboratório de Arqueociências do IGESPAR, IP. Aceitou responder a algumas questões do Arqueociências e aqui as partilhamos convosco.


O título da sua tese é "Alterações Ambientais na Planície Costeira de Quiaios-Tocha durante o Holocénico Recente". Porquê a escolha desta temática?
Como sou palinóloga, a abordagem foi nesta área científica. Primeiro, porque achei interessante. Segundo, porque encontrei um grupo de investigadores que vivem e trabalham na zona de Quiaios. Estudam vários temas da ecologia da paisagem nesta região: os animais e outros aspectos da zoologia, a flora, como é o caso dos líquenes, mas faltava o conhecimento sobre a história da paisagem e sobre o desenvolvimento ambiental. Na região existem várias lagoas com sedimentos anaeróbicos que contêm pólenes e isto é um aspecto fundamental para levar a cabo este tipo de investigação. Existiam, portanto, muitos argumentos para realizar este estudo, mas faltavam verbas. O grupo de Quiaios incentivou-me a candidatar a uma bolsa de FCT e por sorte consegui.
O período abrangido pelo estudo foi o que os sedimentos reflectiram, o Holocénico Recente desde c. 5000 BP. Se fosse possível encontrar sedimentos orgânicos mais antigos seria interessante. Mas para viabilizar o seu estudo seria necessário um equipamento de sondagem melhor.

Qual foi a metodologia utilizada para identificar as alterações climáticas?
Um estudo palinológico não mostra as alterações climáticas de forma directa, mas sim a história da vegetação. A identificação de alterações ambientais pode reflectir mudanças climáticas, mudanças na configuração da linha da costa e no nível do mar, e naturalmente, a própria intervenção humana na paisagem (pastagens, silvicultura, horticultura e agricultura). Completamente essencial para o processo de entendimento e para atingir os resultados do estudo foi a cooperação multidisciplinar com um grupo de investigadores do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra. Fizeram na mesma região investigações exaustivas e abrangentes nas áreas de hidrogeologia (Ana Castilho), sedimentologia (Ana Castilho e Pedro Dinis) e malacologia (Pedro Callapez). Só depois de juntarmos os nossos resultados é que chegamos a uma visão mais global que permitiu apresentar conclusões sobre as alterações ambientais.

Quais foram os principais resultados da sua investigação?
A investigação abrange diversas áreas científicas;

História da vegetação:
Na região de Quiaios – Tocha (bem como na maior parte da zona litoral Portuguesa) existia uma floresta de pinheiros e carvalhos no Holocénico Antigo e Médio. Mais tarde, e em resultado da intervenção humana (em alguns casos combinado com factores climáticos), esta floresta desapareceu e deu lugar a uma paisagem de charneca dominada pela urze de vassoura. Isto processou-se em diferentes momentos, considerando toda a faixa litoral, o que permite concluir que o principal responsável por esta mudança foi o Homem. O pastoreio e a deterioração do clima nos séculos XVII e XVIII (a chamada Pequena Idade do Gelo), fizeram com que a vegetação na zona de Quiaios – Tocha se tornasse mais vulnerável, aparecendo em manchas dispersas, perdendo assim a capacidade de proteger o ambiente contra as inundações de areias. O resultado foi a "desertificação" (foto). Desde 1924 que a zona tem vindo a ser reflorestada – o pinheiro bravo é actualmente a espécie predominante mas existem também algumas manchas de outras espécies nacionais e exóticas.

A linha da costa:
Os resultados também deram indicações importantes sobre a linha da costa. Durante o máximo glacial, há cerca de 18 000 anos antes do presente, o nível do mar estava a uma cota de -120 metros e consequentemente a linha da costa encontrava-se muito afastada do traçado actual. A estabilização ocorreu há cerca de 5000 anos antes do presente. As investigações na zona de Quiaios-Tocha mostraram que a posição mais oriental da linha de costa estava sensivelmente 1 km mais recuada do que hoje em dia. Assim, foi refutada a tese de muitos investigadores que propunham, para esta região, uma linha de costa situada bem mais para o interior, i.e. cerca de 6-7 km.
Quando a aceleração da subida do nível do mar diminuiu formaram-se lagunas salubres ao longo da costa devido a formações de barreiras arenosas protectoras. A vegetação nestas lagunas caracteriza-se por conjuntos florísticos que aguentam este tipo de ambiente, mas também algumas árvores como o amieiro. Ao longo de toda a faixa entre Quiaios e Tocha existem sedimentos argilosos formados neste tipo de laguna. Estes sedimentos estão colmatados por areias, mostrando um processo de assoreamento das lagunas que é posterior a 4000 anos antes do presente.

Gerações de dunas e episódios eólicos:
Foram documentados vários episódios eólicos durante os quais diferentes tipos de dunas se formaram na região. As mais antigas são as dunas truncadas na parte oriental de Gândara, cuja formação teve origem há cerca de 12 000 anos antes do presente. Posteriormente formaram-se dunas parabólicas durante um ou vários períodos eólicos. Finalmente, durante a Pequena Idade do Gelo, há 300-200 anos, formaram-se dunas oblíquas e transversais com grandes extensões verticais e horizontais. As dunas parabólicas foram cobertas de areias e, actualmente, apenas existem pequenas manchas que, durante esta ultima geração de dunas, se encontravam protegidas por floresta.

História das lagoas de água doce:
As actuais lagoas em Quiaios têm uma origem recente: cerca de 300 anos. Existe uma relação entre o movimento de dunas e a deslocação das lagoas para o interior. Numa das lagoas actuais encontrei uma extensa camada contendo raízes e troncos de um arbusto (Erica erigena). A origem da camada era contemporânea da génese da lagoa, evidenciando uma morte abrupta dos arbustos devido a uma inundação local. Foram igualmente identificados sedimentos lacustres cobertos por areias em zonas mais ocidentais do que a localização das lagoas actuais. O topo do sedimento num destes locais foi datado de há cerca de 400 anos. Conclui-se, assim, que a lagoa foi colmatada por areias e, em seguida, emergiram as águas em zonas baixas localizadas mais para o interior.

Diferenças actuais entre as lagoas:
Detectou-se, também, que as lagoas de Vela e Braças, actualmente com características químicas e ambientais diferentes, tiveram evoluções distintas desde a sua génese. Em colaboração com a hidrogeóloga da Universidade de Coimbra, verificámos que este facto está relacionado com a divergência da direcção do fluxo de água e o gradiente hidráulico nas lagoas. O fluxo de água na Lagoa da Vela vem de leste, onde se encontram os campos de agricultura. Como o gradiente hidráulico é baixo, a lagoa tem água estagnada e poluída, com um pH superior a 9. O fluxo de água da Lagoa das Braças é de sul, ou sudoeste, e vem de uma zona de dunas cobertas actualmente por um pinhal. O gradiente hidráulico é muito maior do que na Lagoa da Vela, o que faz com que a água esteja menos poluída, apresentando uma renovação mais rápida. Actualmente a Lagoa das Braças é eutrófica, com um pH c. 8. A morte de peixes e o afloramento de cianobactérias causada pela poluição só se verifica na Lagoa da Vela.



Vista da Bandeira no Cabo Mondego nos anos de 1930 (Foto: extraída de um filme de Manuel Santos. Biblioteca Municipal, Figueira da Foz)

Que importância têm os seus resultados para o Planeamento e Gestão das zonas costeiras Portuguesas?
Os resultados mostram que o ambiente é vulnerável e não aguenta grandes impactes externos. A inundação das areias pode acontecer novamente e, por isso, é necessário ter cuidado com os impactes que provocamos na natureza. Recentemente foi realizada uma grande desarborização na zona da Praia de Mira para a instalação de uma fábrica. Impactes deste tipo podem representar um perigo perante um ambiente tão vulnerável.
A construção de infra-estruturas pode afectar os aquíferos e o nível de lençol freático. Ambas as lagoas são pouco profundas e são fortemente afectadas por diversas variações, seja ao nível da pluviosidade ou mesmo do consumo de água para diferentes propósitos. A instalação de um campo de golfe e de um possível aldeamento foram planeados e aceites ao lado da Lagoa da Vela. Isto implicará um aumento significativo no consumo de água na zona, com perigo de secagem da lagoa e de todos os poços que existem à sua volta. Isto poderá provocar o abaixamento do nível freático na zona, pondo em perigo a irrigação dos campos agrícolas.
Outra preocupação que tenho diz respeito à arborização. Acho que cometeram um erro ao plantar monoculturas de pinheiro ao longo do litoral. Mais persistente contra fogos e contra doenças seria uma floresta como aquela que existia há cerca de 5000 anos, com pinheiros e carvalhos (carrasco e Carvalho-português). Em futuras plantações deviam plantar manchas de árvores caducifólias entre os pinheiros.

O que falta ainda fazer neste domínio em Portugal?
Ainda falta fazer análises em várias regiões do país que mostrem o desenvolvimento da vegetação durante o Holocénico. Isto para termos uma visão mais global da evolução da vegetação no país e para mais facilmente resolver a cronologia dos depósitos investigados. Também falta estudar os ambientes em tempos mais antigos.
Similarmente, são muito escassas as investigações palinológicas em contextos arqueológicos. Espero que esta lacuna seja colmatada o mais brevemente possível.

Que outras aplicações existem para a abordagem palinológica?
Além da sua utilização em contextos arqueológicos, a palinologia é utilizada na área medicinal (as alergias, por exemplo) e também na forense.

De há três meses para cá tem desenvolvido a sua actividade no Laboratório de Arqueociências do IGESPAR. Em que projectos está actualmente a trabalhar?
Em colaboração com o grupo de Coimbra acabámos há pouco um artigo que submetemos à revista The Holocene. Estou também a preparar um poster para uma conferência internacional sobre paisagens culturais na Europa. Preparo ainda algumas aulas de palinologia para futuro ensino na universidade de Lisboa e em Coimbra.
O projecto mais importante está relacionado com o restabelecimento das colecções de referência de sementes e de pólenes para futuras investigações e estudos.

sábado, 4 de setembro de 2010

Vaga em Antropologia Biológica na NYU

A Universidade de Nova York abriu concurso para um lugar de docente em Antropologia Biológica no Departamento de Antropologia. O prazo para as candidaturas termina a 15 de Novembro e os detalhes podem ser consultados aqui.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

The world's oldest living things

Uma palestra de Rachel Sussman acerca de organismos vivos com idades incríveis. Desde uma árvore que tem já cerca de 80 000 anos e uma actinobacteria com 400 000 a 600 000 anos, são vários os organismos surpreendentes apresentados.

Aconselho a ver até ao fim. Descarregar aqui.

Doc: The Real Neanderthal Man

No 9º Festival Internacional do Filme Arqueológico de Bidasoa (País Basco), o documentário The Real Neanderthal Man venceu o Grande Prémio. O filme acompanha a "biografia" do holótipo do Homem de Neandertal - o esqueleto encontrado no Vale de Neander em meados do séc. XIX - enquanto fonte de conhecimento científico.

Quem quiser dar uma espreitadela ao documentário, pode fazê-lo aqui.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Alterações ambientais/Evolução ambiental

O Homem altera o Ambiente? Parece ser uma questão absurda ou de resposta óbvia, mas não é. Ingold questiona esta ideia, defendendo que o Homem não é uma agente externo à natureza. “people live not on or off the environment but within it” (apud Bell e Walker 2005). O Homem é um factor ecológico.

De facto, a realidade pode ser entendida desta forma e a crítica é pertinente pois é evidente que essa separação entre Homem e Ambiente é assumida em muitos discursos.

De qualquer forma, dizer que o “Homem altera o Ambiente” ou que uma mudança é “antropogénica” é um auxiliar de discurso importante para descrever mudanças provocadas por acções directas de um interveniente das dinâmicas ambientais, o Homem. Do mesmo modo, podemos dizer que há alterações provocadas por factores climáticos e não estamos necessariamente a implicar que o Clima seja exterior ao ambiente.


Referência:

Bell, M., Walker, M. (2005). Late Quaternary Environmental Change. Physical and Human Perspectives, Pearson/Prentice Hall.

Ou seja, dizer que o Homem altera o Ambiente não implica que consideremos o Homem um factor externo ao ambiente ainda que muitos o considerem como tal.

“Alterações ambientais” são uma “evolução ambiental” e raramente se encontra um único factor a determinar a sua tendência.

O Homem e as Alterações Ambientais: visões da arqueologia

A relação entre as sociedades humanas e as alterações ambientais é um tema que está muito em voga nos meios científicos nacionais e internacionais, tendo-se alastrado inclusive aos meios de comunicação social. Fala-se de aquecimento global, incêndios, poluição atmosférica e dos recursos aquáticos, etc.

Na arqueologia esta temática foi abordada de forma recorrente nas últimas três décadas. Hoje em dia, as alterações ambientais são apontadas como factores decisivos para o colapso de culturas e impérios na América do Sul e no Próximo-Oriente (aquecimento e secas de longa duração) e até em pleno Oceano Pacifico - os Rapa Nui na Ilha da Páscoa (desflorestação e perda de recursos).

Do ponto de vista da Arqueobotânica e da Paleoecologia é um tema muito interessante de abordar também aqui em Portugal. Basta ler os vários artigos acerca dos estudos palinológicos da Serra da Estrela e do Noroeste Alentejano. Que alterações ambientais houve? Qual o papel do Homem nessas alterações? Que reflexos essas alterações tiveram nas comunidades humanas? Como reagiram essas comunidades? São várias questões que devem ser colocadas.

Para reflexão, deixo aqui duas citações de Bell e Walker (2005), sendo provável que volte a este tema em próximas ocasiões.

"Human beings do not simply respond to natural factors as determinists assume they possess the capacity of free will and for planned long-term independent action. Environmental change may, for instance, create the opportunity, or necessity, for change in human society but not determine the character, trajectory or the timescale of that change."

"In altering the environment human communities may also make themselves susceptible to new types of environmental hazard. Thus coping strategies are also important in alleviating the effects, both short and long term, of human communities themselves."


Referência:

Bell, M., Walker, M. (2005). Late Quaternary Environmental Change. Physical and Human Perspectives, Pearson/Prentice Hall.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

I Encontro Hispano-Português de Etnobiologia

O I Encontro Hispano-Português de Etnobiologia vai decorrer entre 20 e 25 de Setembro de 2010 em Albacete, Espanha.

Vai contar com uma sessão de Arqueobotânica, Arqueozoologia e Paleoetnobotânica coordenada por Leonor Peña-Chocarro e E. Martín-Consuegra Fernández. Podem ver o programa aqui.