terça-feira, 22 de junho de 2010
Ciclo de Conferências ALT-SHN
Formadores/oradores:
Katina Lillios,
Anna J. Waterman
Jonathan T. Thomas
Joe Alan Artz
17 de Julho - Palestras - Auditório da Junta de Freguesia de Santa Maria do Castelo e S. Miguel Entrada Livre Até 40 participantes
Entre as 10.00h e as 17.30h
24 e 25 de Julho – Workshops - Biblioteca da ALT-Sociedade de História Natural 20€ (sócios) / 30 € (não sócios) - cada workshop 8 a 14 participantes
Entre as 10.00h e as 17.00h
PROGRAMA Palestras 17 Julho
10:00 - Interdisciplinary Excavations at the Late Neolithic-Early Bronze Age Rockshelter of Bolóres, Katina T. Lillios and Joe Alan Artz
11:30 - Identifying Individuals in the Late Neolithic Collective burials of Bolóres: Successes and Constraints, Anna J. Waterman
14:30 - Raw Materials and Taste in the Late Neolithic Material Culture of the Estremadura, Jonathan T. Thomas
16:00 - The Engraved Slate Plaques of Neolithic Iberia, Katina T. Lillios
Workshop 24 Julho
10:00-17:00 - Experimental Replication of Late Neolithic Slate Plaques and Beads, Jonathan T. Thomas
Workshop 25 Julho
10:00-17:00 - Working with Fragmented Human Remains from Collective Burials: A Tutorial in Refitting and Identification, Anna J. Waterman
Para mais informações:
www.alt-shn.org
educacao@alt-shn.org
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Identificar “foodways” em Quseir
Uma última mensagem sobre o congresso do IWGP.
M. Van der Veen fez, com Jacob Morales e Alison Cox, uma apresentação na linha daquela que já havia feito no último congresso da AEA em York no ano passado. Ainda assim não deixa de surpreender não só pela preservação dos materiais vegetais (dissecados) que apresenta mas principalmente pela abordagem que faz ao tema da alimentação.
Vejam o resumo aqui.
Tal como em York, esta comunicação centrada nos resultados obtidos na jazida romana (séculos I a III d.C.) e muçulmana (séculos XI a XIII) de Quseir, no Egipto, começou com uma citação de A. Sherrat:
“People do not eat species, they eat meals.”
É uma citação muito pertinente que nos relembra que os vestígios arqueológicos que frequentemente tornamos uma abstracção são o reflexo de uma realidade concreta, são o resultado de gestos e processos naturais concretos. Afinal de contas, as comunidades antigas não habitavam sítios arqueológicos mas sim povoações.
A investigação em “foodways”, de inspiração antropológica, trata não só os processos pelos quais um determinado bem alimentar se torna numa refeição, desde a semente ao prato, mas também as práticas sociais associadas à refeição: quem prepara, quem come o quê, como se come.
Em Quseir notam-se diferenças cronológicas ao nível do consumo de melancia. Sendo evidente que o fruto era consumido em ambas as fases, só em época islâmica é que se verificou uma prática de consumo das suas sementes. Foi feito inclusive trabalho experimental para registar e comparar fracturas da casca das sementes. Podem ver este estudo num artigo já publicado.
O consumo de citrinos está também atestado em ambos os períodos. De Citrus cf. medica (Cidra) só surgem sementes pelo que os autores deduzem que as cascas eram consumidas, pois várias receitas romanas e muçulmanas incluem casca deste fruto.
No entanto, surgem cascas de Citrus cf. X aurantifolia (lima). Os frutos surgem cortados ao meio, com claras evidências de lhes ter sido retirado o sumo. Estes vestígios resumem-se unicamente aos níveis islâmicos.
As uvas eram consumidas frescas em época romana enquanto no período islâmico possivelmente também eram consumidas como passas.
Uma última palavra para o surgimento de sementes de Lupinus albus – vulgarmente conhecidos como tremoços. Surge a semente mas também a casca desta em separado, testemunhando o seu consumo bem ao jeito mediterrânico, tal como o fazemos hoje.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Torwiesen II – povoado neolítico construído em cinco anos (entre 3283 e 3278 cal BC)
Voltando ao último congresso do IWGP, falo agora da comunicação de Ursula Maier, intitulada “Detecting intra-site patterns with systematic sampling strategies – archaeobotanical grid sampling in lakeshore settlements”.
A autora falou de um povoado muito interessante, Torwiesen II, localizado no sul da Alemanha. Podem ver o resumo da comunicação aqui ou ler mais neste artigo já publicado na revista Environmental Archaeology.
Até agora foram recolhidos nas amostras estudadas (que são somente subamostras) 1.429.734 macrorrestos vegetais de mais de 150 espécies. As recolhas foram feitas com uma estratégia comum a este tipo de sítios lacustres, i.e., recorrendo a tubos de plástico de 10cm de diâmetro e 20 a 30cm de comprimento colocados em cada metro quadrado.
O primeiro aspecto a salientar é o facto da sequência de construção do povoado ser conhecida ao nível do ano. Não é inédito na região, bem pelo contrário. É a vantagem de ter índices de preservação excepcionais e de, por isso mesmo, ter sequências dendrocronológicas muito bem apuradas. Assim, detectando-se as madeiras da construção das cabanas e passadiços, o seu estudo comparado com as finas sequências dendrocronológicas da região – obtidas numa tradição de muitas décadas de estudo em dendrocronolgia da área central da Europa – permite conhecer a data de abate de cada árvore. Deste modo, é conhecida a data de construção de cada casa, assim como dos espaços comuns. É possível conhecer momentos de renovação e obras nos espaços, ano a ano. Em Torwiesen II as 15 casas foram sendo construídas ao longo de cinco anos, entre 3283 e 3278 cal BC.
De resto, estes dados da construção do povoado foram unicamente pormenores na apresentação que se focava nos vestígios carpológicos. A autora detectou áreas de decorticação de cereais, áreas de confecção de alimentos e áreas de lixeira. Foram também encontradas diferenças entre diferentes casas. Algumas casas tinham grandes quantidades de cereais, linho e plantas recolectadas, noutras as espécies cultivadas eram raras enquanto que outras ainda eram especializadas em papoila. A parte curiosa é que as casas com abundantes cereais eram aquelas que tinham maiores dimensões, encontrando-se concentradas, todas elas, na área ocidental do povoado.
A autora considera esta diferenciação na distribuição dos macrorrestos vegetais como uma evidência de diferenciação social. Naturalmente, só uma leitura integral dos resultados arqueológicos permita aferir esta conclusão e afastar a possibilidade de estarmos perante uma mera diferenciação espacial de tarefas.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Conferência MNA/GEEvH/NAP

Relembro aqui a conferência de Hugo Rafael Oliveira a realizar no próximo dia 18 no Museu Nacional de Arqueologia. Este conferencista participou no XV Congresso do International Work Group for Paleoethnobotany realizado recentemente na Alemanha.
Uvas encontradas em Itália e Grécia: achados excepcionais
Mais uma apresentação realizada no último congresso do IWGP: “Seeds in context – the archaeobotanical macroremains from Muro Tenente, Southeast Italy”, da autoria de Daphne Lentjes.
O interesse geral deste sítio pode ser confirmado no site oficial aqui.
Saliento esta comunicação por ter focado o achado peculiar, numa sepultura, de milhares de uvas queimadas. Tudo indica que foram queimadas de propósito como parte de um ritual funerário. O mais impressionante é o surgimento da pele das uvas ainda agarrada (queimada) às grainhas. A autora afasta a hipótese de se tratar de evidências de prensagem de uva pois, segundo referiu, várias uvas surgem inteiras, praticamente intactas.
Este ritual implicou também a oferenda de cereais, ainda que em menores quantidades.
Podem ver também no poster de S. Valamoti e E. Gatzogia acerca da jazida da Idade do Ferro, grega, de Karabournaki imagens de uvas com pele. Neste caso os vestígios são interpretados como restos de uvas prensadas, testemunhando a produção de vinho. Vejam o poster aqui.
Acima de tudo estes são achados magníficos que atestam a capacidade de preservação pelo meio da carbonização, ainda que este sejam caso excepcionais.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Dorian Fuller: Domesticação de espécies no Próximo-Oriente
No último congresso do IWGP Dorian Fuller fez um comunicação muito interessante intitulada “Cultivation as slow evolutionary entanglement: comparative data on the rate and sequence of domestication”. Na sua apresentação, Fuller colocou a seguinte questão: “Rates of change in domestication are different from the rates of change in natural selection?”
Aparenta ser uma questão simples, no entanto é um assunto de extrema importância quando se estuda a neolitização e o inicio das práticas agrícolas no Próximo Oriente. Afinal de contas, os primeiros cultivos eram, na verdade, à base de espécies silvestres. A selecção de sementes, ano após ano, conduziu a alterações morfológicas. São essas sementes alteradas que constituem as espécies domesticadas.
Assim, são necessárias cautelas quando fazemos deduções simples, tais como “a presença de sementes de espécies domésticas num sítio arqueológico é um indício de agricultura enquanto a presença de sementes silvestres é um indício de recolecção”. A verdade é que nas jazidas contemporâneas desta fase de transição – isto é, da fase de domesticação e alteração morfológica das sementes das espécies cultivadas – as sementes de morfologia silvestre de algumas espécies poderão, na verdade, ter origem em práticas agrícolas. Claro que isto só constitui um problema, e um desafio, nos locais de origem de domesticação. No caso dos cereais do nosso Neolítico, o Próximo-Oriente.
Fuller cita os trabalhos experimentais de Hillman e Davies (ver referências abaixo) que concluíram que a domesticação – alteração morfológica com base na selecção de sementes – demoraria entre 20 a 100 anos. No entanto, os dados da Arqueobotânica sugerem que o processo foi bastante mais lento, de 200 a 4000 anos. Isto deve-se provavelmente à continuação da recolecção e cultivo de silvestres, lado a lado com as sementes seleccionadas, permitindo a existência de cruzamentos genéticos.
Conclui Dorian Fuller que houve “not a domestication event but yes a domestication process”.
Referências:
Hillman, G. C., and Davies, M. S. (1990a) Domestication rates in wild-type wheats and barley under primitive cultivation. Biol. J. Linnean Soc. 39: 39–78.
Hillman, G. C., and Davies, M. S. (1990b) Measured domestication rates in wild wheats and barley under primitive cultivation, and their archaeological implications. J. World Prehistory 4: 157–222.