O último número da Nature inclui um artigo interessante sobre a denominada grey literature. No Reino Unido, desde há 20 anos que a legislação obriga os projectos de construção à avaliação do seu impacto no património arqueológico e a eventuais intervenções de salvaguarda. Isso conduziu a um incremento da investigação neste campo e calcula-se que mais de 90% desta seja resultante de projectos da arqueologia empresarial. Infelizmente, a sua divulgação está na maioria das vezes limitada aos relatórios que as empresas entregam aos seus clientes e aos organismos que tutelam a arqueologia britânica. Estes relatórios não-publicados constituem a literatura cinzenta e os académicos têm apontado algumas dificuldades em aceder a eles dado que não integram bibliotecas e não estão por isso disponibilizados para empréstimo inter-bibliotecário. Além disso, os relatórios entregues aos clientes são tratados como mercadorias e aqueles apresentam por vezes relutância em facultar a sua leitura.
Um exemplo da importância da literatura cinzenta é apresentado no artigo em questão. Durante os anos 80, os académicos concluíram que a população diminuíra drasticamente durante a Idade do Bronze nas Ilhas Britânicas. Esta teoria deveu-se ao reduzido número de povoados até então encontrados e atribuíveis a esta cronologia específica. Porém, os dados da arqueologia empresarial vieram invalidar esta conjectura dado que inúmeros povoados foram entretanto descobertos. Assim sendo, os investigadores não se podem dar ao luxo de omitir a literatura cinzenta nos seus projectos, pois é fundamental para a compreensão do Passado. Felizmente, já estão em curso alguns projectos de divulgação online, como são os casos da Oxford Archaeology e da Wessex Archaeology.
De certa forma, esta situação encontra paralelo na realidade portuguesa. Apesar das intervenções arqueológicas estarem obrigadas à entrega de relatório, a sua consulta está muito limitada geograficamente ao Arquivo do IGESPAR e a sua divulgação online poderia ser uma solução viável. Numa época de encurtamento das distâncias a nível global, pouco sentido faz que, a título de exemplo, um investigador residente no Porto tenha de se deslocar 300km para aceder a um processo em Lisboa. Esperemos que um recurso desta natureza esteja num horizonte próximo. Partilhem connosco as vossas opiniões!
sábado, 10 de abril de 2010
segunda-feira, 29 de março de 2010
Sobre a "nova" espécie de hominíneo
Continuando o polémico tema apontado num post anterior pelo Ricardo, é preciso frisar algumas coisas.
Primeiro, a importância mediática que foi dada a este estudo parece um pouco desproporcionada. O artigo de Ana Gerschenfeld no Público on-line é uma cativante narrativa do quão excitante pode ser o dia-a-dia dum investigador (suspiro - se ao menos fosse verdade), mas apela mais ao coração que à razão. Em ciência os resultados espectaculares tendem ou a ser posteriormente falsificados ou, a serem genuínos, precisam sempre de mais estudos para serem confirmados. Infelizmente, a comunicação social na sua busca pelo “entretenimento primeiro, informação depois”, não compreende muito bem isto.
O próprio Svante Paabo, um dos pioneiros do estudo de DNA antigo e um dos mais competentes investigadores no meio, iniciou a sua carreira com uma comunicação publicada no mesmo jornal onde este estudo do putativo hominineo de Denisova foi publicado – Nature. Ele relata a recuperação de 3.400 bp (pares de base) da sequência de DNA duma múmia egípcia. Foi naturalmente um resultado fabuloso que viria inclusive a abrir as portas da imaginação de Michael Crichton para escrever o seu Jurassic Park. Hoje sabe-se que o DNA antigo encontra-se sempre bastante degradado e que fragmentos com mais de aproximadamente 500 bp resultam de contaminações com DNA moderno. Além disso, o ambiente quente e com variações térmicas do Egipto dificulta bastante a sobrevivência de DNA (este é um pormenor importante sobre outro trabalho muito duvidoso mas tremendamente mediatizado: a recuperação de DNA da múmia de Tutankhamon). O que Paabo tinha publicado no mais prestigiado jornal cientifico era… uma contaminação, provavelmente o seu próprio DNA.
“Escândalos” semelhantes assombraram o mundo do DNA antigo pelo que muitos investigadores adoptaram uma atitude mais humilde. No final dos anos 90 convencionaram-se nove critérios para garantir a verificabilidade e autenticidade dos estudos de DNA antigo.
Um deles, que curiosamente neste estudo de Krause, Paabo, e colaboradores parece não ter sido feito (ou pelo menos não aparece explicitado no artigo), é a replicação por um grupo independente e num local diferente. Se o trabalho de extracção de DNA e subsequente análise foi feito apenas no Max Planck Institute em Leipzig, tal não é boa prática. Talvez a unicidade da amostra (uma pequena falange) o justifique, mas quando um resultado tão bombástico como uma nova espécie de hominíneo é apresentado as regras devem ser seguidas.
Esse é outro detalhe interessante: uma falange foi o material usado para extrair DNA. Apesar das condições excepcionais da Sibéria para a preservação de biomoléculas e o pressuposto teórico de que o DNA humano pode sobreviver post-mortem em qualquer tecido ósseo, é algo anómalo que um pedaço tão pequeno de osso seja usado como única evidência genética (toma lá esta, CSI!!!).
À primeira vista, os resultados deste trabalho parecem fiáveis e as conclusões sustentáveis. Não parece nada de anormal a existência de espécies de hominíneos que ainda desconhecemos, e que terão certamente migrado de África em diferentes momentos. Apenas um antropocentrismo bacoco pode levar à ideia de que somos uma espécie excepcional e infinitamente rara (pessoas religiosas e malta das humanidades comecem a acender-me a fogueira). Mas antes de se partir para uma excitante revisão de todos os livros de evolução humana é preciso esperar por mais (e melhores) estudos.
Primeiro, a importância mediática que foi dada a este estudo parece um pouco desproporcionada. O artigo de Ana Gerschenfeld no Público on-line é uma cativante narrativa do quão excitante pode ser o dia-a-dia dum investigador (suspiro - se ao menos fosse verdade), mas apela mais ao coração que à razão. Em ciência os resultados espectaculares tendem ou a ser posteriormente falsificados ou, a serem genuínos, precisam sempre de mais estudos para serem confirmados. Infelizmente, a comunicação social na sua busca pelo “entretenimento primeiro, informação depois”, não compreende muito bem isto.
O próprio Svante Paabo, um dos pioneiros do estudo de DNA antigo e um dos mais competentes investigadores no meio, iniciou a sua carreira com uma comunicação publicada no mesmo jornal onde este estudo do putativo hominineo de Denisova foi publicado – Nature. Ele relata a recuperação de 3.400 bp (pares de base) da sequência de DNA duma múmia egípcia. Foi naturalmente um resultado fabuloso que viria inclusive a abrir as portas da imaginação de Michael Crichton para escrever o seu Jurassic Park. Hoje sabe-se que o DNA antigo encontra-se sempre bastante degradado e que fragmentos com mais de aproximadamente 500 bp resultam de contaminações com DNA moderno. Além disso, o ambiente quente e com variações térmicas do Egipto dificulta bastante a sobrevivência de DNA (este é um pormenor importante sobre outro trabalho muito duvidoso mas tremendamente mediatizado: a recuperação de DNA da múmia de Tutankhamon). O que Paabo tinha publicado no mais prestigiado jornal cientifico era… uma contaminação, provavelmente o seu próprio DNA.
“Escândalos” semelhantes assombraram o mundo do DNA antigo pelo que muitos investigadores adoptaram uma atitude mais humilde. No final dos anos 90 convencionaram-se nove critérios para garantir a verificabilidade e autenticidade dos estudos de DNA antigo.
Um deles, que curiosamente neste estudo de Krause, Paabo, e colaboradores parece não ter sido feito (ou pelo menos não aparece explicitado no artigo), é a replicação por um grupo independente e num local diferente. Se o trabalho de extracção de DNA e subsequente análise foi feito apenas no Max Planck Institute em Leipzig, tal não é boa prática. Talvez a unicidade da amostra (uma pequena falange) o justifique, mas quando um resultado tão bombástico como uma nova espécie de hominíneo é apresentado as regras devem ser seguidas.
Esse é outro detalhe interessante: uma falange foi o material usado para extrair DNA. Apesar das condições excepcionais da Sibéria para a preservação de biomoléculas e o pressuposto teórico de que o DNA humano pode sobreviver post-mortem em qualquer tecido ósseo, é algo anómalo que um pedaço tão pequeno de osso seja usado como única evidência genética (toma lá esta, CSI!!!).
À primeira vista, os resultados deste trabalho parecem fiáveis e as conclusões sustentáveis. Não parece nada de anormal a existência de espécies de hominíneos que ainda desconhecemos, e que terão certamente migrado de África em diferentes momentos. Apenas um antropocentrismo bacoco pode levar à ideia de que somos uma espécie excepcional e infinitamente rara (pessoas religiosas e malta das humanidades comecem a acender-me a fogueira). Mas antes de se partir para uma excitante revisão de todos os livros de evolução humana é preciso esperar por mais (e melhores) estudos.
domingo, 28 de março de 2010
Castro de Penalba - Carpologia
Sei que se trata de um texto que já tem vários anos e que se trata de um sítio arqueológico bastante conhecido - em parte devido a este estudo de carpologia - mas é sempre útil relembrar as jazidas excepcionais.
No endereço http://revistas.ucm.es/bio/02144565/articulos/BOCM9090110081A.PDF podem descarregar o artigo onde são publicados os dados referentes às sementes recolhidas em escavação no Castro de Penalba (Aira et al. 1990). Impressiona essencialmente a quantidade dos macrorrestos recolhidos em níveis do inicio da Idade do Ferro : 70 kg de trigo de grão vestido (Triticum dicoccum), 2 kg de milho miúdo (Panicum miliaceum) e 7 kg de bolotas (Quercus).
Parte destes vestígios de agricultura e recolecção encontrava-se em pequenas concentrações junto a fundos de vasos, possivelmente utilizados para a sua armazenagem.
Outro aspecto pelo qual este estudo é interessante é por não ser o único realizado sobre amostras desta jazida. Um estudo do mesmo ano (Tellez et al. 1990) chega a espécies de trigo diferentes, com base numa abordagem exclusivamente biométrica, restando como símbolo da escassa fiabilidade deste tipo de abordagem, tendo em conta que o estudo de Aira Rogriguez et al. (1990) baseia a identificação do trigo no carácter diagnosticante das espiguetas.
Referência:
AÍRA RODRIGUEZ, M. J.; RAMIL REGO, P.; ALVAREZ NÚÑEZ, A. (1990). Estudio Paleocarpológico realizado en el Castro de Penalba (Campolameiro, Pontevedra. España). Bot. Complutensis, 16: 81-89.
TELLEZ, R.; CHAMORRO, J.G; ARNANZ, A.M.(1990). Análisis discriminante en la identificación de trigos arqueológicos españoles. Trab. de Preh. 47: 291-316.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Nova espécie de hominíneo?
Através da análise de ADN foi identificada uma possível nova espécie de hominíneo, designado de “X woman”, que poderá datar de há 48.000 a 30.000 anos. A amostra foi recolhida de um dedo descoberto há dois anos na gruta Denisova (Sibéria). Esta descoberta sugere que terão existido naquela área três linhagens hominíneas (humanos anatomicamente modernos, Neandertais e “X-Woman”), ás quais acresce o Homo
floresiensis na ilha das Flores. Os dados genéticos sugerem que humanos anatomicamente modernos, Neandertais e a nova espécie terão partilhado o último antepassado comum há cerca de 1 milhão de anos.
A designação provisória adoptada deve-se ao facto da pesquisa inicial se ter baseado na análise do ADN mitocondrial, que é transmitido por via materna, não significando, assim, que se trata de uma mulher. Essa questão só poderá ser respondida após a análise do ADN nuclear, assim como diversas outras que emergem. Há, porém, que enfatizar que embora os dados sugiram que se pode tratar de uma nova espécie são necessárias mais informações, como já sublinhado por diversos investigadores, que corroborem esta hipótese para que se possa afirmar que estamos efectivamente perante uma nova espécie
Aqui fica o link para a notícia e respectivos artigos:
http://www.nature.com/news/2010/100324/full/464472a.html
floresiensis na ilha das Flores. Os dados genéticos sugerem que humanos anatomicamente modernos, Neandertais e a nova espécie terão partilhado o último antepassado comum há cerca de 1 milhão de anos.
A designação provisória adoptada deve-se ao facto da pesquisa inicial se ter baseado na análise do ADN mitocondrial, que é transmitido por via materna, não significando, assim, que se trata de uma mulher. Essa questão só poderá ser respondida após a análise do ADN nuclear, assim como diversas outras que emergem. Há, porém, que enfatizar que embora os dados sugiram que se pode tratar de uma nova espécie são necessárias mais informações, como já sublinhado por diversos investigadores, que corroborem esta hipótese para que se possa afirmar que estamos efectivamente perante uma nova espécie
Aqui fica o link para a notícia e respectivos artigos:
http://www.nature.com/news/2010/100324/full/464472a.html
quarta-feira, 24 de março de 2010
Datação por carbono não destrutiva
"Non-destructive carbon dating"
é a designação de uma nova forma de datação por carbono 14 (C-14) desenvolvida por uma equipa de investigação dirigida por Marvin Rowe. Esta técnica já foi testada em mais de 20 substâncias orgânicas tendo oferecido resultados congruentes com os da forma convencional da datação por C-14. A técnica continua em processo de aperfeiçoamento e poderá a vir usada sem que implique destruição das matérias analisadas.
Aqui fica o link para a notícia:
http://www.eurekalert.org/pub_releases/2010-03/acs-nmc031210.php
é a designação de uma nova forma de datação por carbono 14 (C-14) desenvolvida por uma equipa de investigação dirigida por Marvin Rowe. Esta técnica já foi testada em mais de 20 substâncias orgânicas tendo oferecido resultados congruentes com os da forma convencional da datação por C-14. A técnica continua em processo de aperfeiçoamento e poderá a vir usada sem que implique destruição das matérias analisadas.
Aqui fica o link para a notícia:
http://www.eurekalert.org/pub_releases/2010-03/acs-nmc031210.php
segunda-feira, 22 de março de 2010
II Jornadas do Quaternário
No início do próximo mês de Maio vão realizar-se em Braga as III Jornadas do Quaternário, da APEQ (Associação Portuguesa para o Estudo do Quaternário) subordinadas ao tema "Evolução Paleoambiental e Povoamento no Quaternário do Ocidente Peninsular".
Já estão marcadas quatro conferências mas até 12 de Abril é possível enviar propostas de comunicações.
Vejam a primeira circular aqui em baixo (aumenta ao clicar).
sábado, 20 de março de 2010
Colecções de Esqueletos Identificados
No link abaixo, podem saber alguns detalhes de diversas colecções de esqueletos existentes um pouco por todo o mundo. Estas colecções são fundamentais para o desenvolvimento das metodologias aplicadas pela Antropologia Biológica e o site disponibiliza referências bibliográficas de alguns dos trabalhos de investigação efectuados. Também estão listadas algumas colecções arqueológicas.
http://skeletal.highfantastical.com/
http://skeletal.highfantastical.com/
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