A construção de estruturas de armazenagem é um aspecto determinante para as sociedades produtoras pois assegura a sua resiliência face a eventos inesperados (e.g. perda de colheitas devido a pragas ou adversidades de ordem climática). Entre estas tem-se dado especial enfoque às estruturas escavadas no solo ou rocha, às quais é muitas vezes aplicado o termo silo. Na verdade, um silo é, simplesmente uma estrutura de armazenagem de cereais, podendo ser uma fossa ou uma estrutura construída em positivo. O uso do termo silo sem especificar o tipo de estrutura pode, por isso, conduzir a equívocos.
As fossas de armazenagem são uma solução recorrente em muitos contextos cronológicos e culturais pois permitem a preservação de alimentos durante amplos períodos de tempo. É para isso necessário que estejam bem impermeabilizadas, o que se pode alcançar revestindo as paredes com argila. No Castro de Sola um silo apresenta um pedaço de cortiça no fundo, também com a função de evitar a humidade. O uso de palha tem o mesmo efeito.
A fossa deve permanecer encerrada de modo a criar uma ambiente anaeróbio que previne a degradação por acção biológica.
A imagem que segue nesta mensagem é retirada de uma obra de referência da arqueobotânica ibérica (Ramon Buxó, Arqueología de las plantas, 1997: p.179) e retrata a construção de uma fossa de armazenagem (a, b), o revestimento (c), uso (d, e, f, g) e abandono (h, i).
"Wheat should be stored in granaries, above ground, open to the draught on the east and north, and not exposed to damp air rising in the vicinity. The walls and floor are to be coated with marble cement, 2 or at least with clay mixed with grain-chaff and amurca, as this both keeps out mice and worms and makes the grain more solid and firm. Some farmers sprinkle the wheat, too, with amurca, using a quadrantal to about a thousand modii. Different farmers use different powders or sprays, such as Chalcidian or Carian chalk, or wormwood, and other things of this kind. Some use underground caves as granaries, the so‑called sirus, such as occur in Cappadocia and Thrace; and still others use wells, as in the Carthaginian and Oscensian districts in Hither Spain.106 They cover the bottom of these with straw, and are careful not to let moisture or air touch them, except when the grain is removed for use; for the weevil does not breed where air does not reach. Wheat stored in this way keeps as long as fifty years, and millet more than a hundred. 3 Some people, as in Hither Spain and in Apulia, build granaries in the field, above ground, so constructed that the wind can cool them not only from the sides, through windows, but also beneath from the ground.e Beans and legumes p295are kept fresh for a very long time in olive jars sealed with ashes."
Para quem se interessa pelo assunto, está on-line mais um bom exemplo de base de dados de Arqueobotânica, desta vez britânica, já com 13 anos! Vejam o seguinte artigo:
Impressiona a quantidade de espécies inventariadas, assim como o grande número de sítios arqueológicos. Mas saliento o facto de o nível base da apresentação não ser o sítio mas sim a amostra, dentro do sítio.
Foi hoje defendida a primeira tese realizada no âmbito do Mestrado em Geoarqueologia, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em parceria com o IGESPAR: "Estudo petroarqueológico da utensilagem lítica do sítio arqueológico Lajinha 8 (Évora, Portugal). Análise de proveniências" por Rita Gaspar, tendo sido aprovada com a classificação de 19 valores.
Com a autorização da autora, segue o resumo da dissertação:
"No estudo aqui apresentado, centrado na colecção de utensilagem de pedra lascada do sítio arqueológico do Neolítico antigo Lajinha 8, desenvolveu-se uma abordagem geoarqueológica relativamente ao aprovisionamento das matérias-primas líticas utilizadas por este grupo humano.
O conjunto alvo é composto por 254 utensílios maioritariamente sobre suporte lamelar onde se denota uma forte componente micrólita, nomeadamente de geométricos. O seu estudo realizou-se com recurso a análises petrográficas macro e microscópicas que conduziram à identificação de sete litologias distintas. A representação destas no conjunto alvo encontra-se directamente relacionada com a sua aptidão para o talhe, salientando-se entre as rochas sedimentares as de texturas micro e/ou criptocristalinas e entre as rochas ígneas as de texturas afaníticas. A forte presença de litologias menos comuns em conjuntos líticos de outros sítios arqueológicos enquadráveis no Neolítico antigo, como sejam rochas vulcanosedimentares e metaliditos, é outra característica do conjunto em análise.
O estudo petrográfico realizado foi complementado com análise cartográfica, bibliográfica e prospecção de campo com objectivo de identificar as Fontes de Matérias-Primas das litologias representadas. No entanto, apenas foi possível apontar algumas prováveis Áreas Mãe de Proveniência, através das formações cartografadas. Desta forma é possível colocar a hipótese de que a maior parte das matérias-primas utilizadas por este grupo humano estariam disponíveis a distâncias de cerca de 25km em linha recta. Contudo, algumas das litologias utilizadas, nomeadamente os chertes e jaspes, poderão ter a sua origem em intercâmbios com outros grupos humanos."
Embora não seja uma ferramenta recente, para quem não sabe, fica aqui a informação.
O WSL tem on-line um glossário de termos usados em dendrocronologia. Existe em várias linguas, inclusive em português. É, aliás, uma óptima forma de confirmar qual a melhor tradução para termos de dendrocronologia.
Existe já um glossário em várias línguas com termos de anatomia de madeiras, editado pela IAWA (International Association of Wood Anatomists), que segue o mesmo principio. Não era mau pensar em algo deste tipo para termos de Arqueologia.
À guisa de sugestão natalícia, foi editado pela Gradiva o livro “O Património Genético Português – a história humana preservada nos genes” de Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro. Mais um exemplo de que o género da divulgação científica está em crescimento em Portugal, e que cientistas de topo fazem um esforço por trazer a sua investigação a um público generalista, de forma compreensível a qualquer pessoa interessada.
Esta é uma obra de leitura empolgante e bem redigida. A genética populacional humana é aqui introduzida de forma inteligível (e inteligente) ao leitor menos versado, sem cair em simplismos paternalistas. Os temas abordados, mesmo os que envolvem conceitos mais complexos, são apresentados com clareza e as autoras não caem na tentação de tornar os temas “divertidos”. O texto é sóbrio mas simultaneamente entretém e cativa porque os próprios temas são fascinantes e dispensam artifícios de estilo.
Vários tópicos são discutidos, mas todos têm em comum a explicação de como a genética pode ser usada para perceber o passado humano, desde as origens da espécie até a períodos históricos recentes. Pelo caminho as autoras ilustram bem o modo de funcionamento da investigação científica e até a forma como os cientistas entendem e interagem com os arqueólogos.
Logo no inicio esclarece-se que a genética, ao contrário do que muitas vezes se pensa, demonstra a irracionalidade presente no conceito de raça:
“Ao longo deste livro, vamos usar palavras como «português», «europeu», «escravo», «subsariano», «islâmico», «cristão», «judeu», sem qualquer juízo de valor associado. Aliás, neste ponto a genética forneceu-nos objectivamente as evidências para destronar muitos preconceitos (…) é assim uma tentativa de informar numa linguagem menos técnica mas objectiva para que haja menor possibilidade de mau uso.”(pág. 9).
“(…)deve ficar claro que se e quando a expressão «raça» for utilizada, ela irá representar uma construção social, politica ou cultural e não uma entidade biológica.” (pág. 44).
Numa primeira parte poderá ler-se sobre como os geneticistas usam a informação contida no DNA das populações humanas actuais para esclarecer a origem do homem moderno e para avançar uma data para este evento. Fala-se de como a genética parece dar força ao modelo “out-of-Africa” de evolução do Homo sapiens. É ainda explicada a forma como o DNA mitocondrial e marcadores no cromossoma Y são usados para estudar as grandes migrações humanas no paleolítico. Referem-se Neandertais e a possibilidade destes se terem cruzado com homens modernos. Revê-se o uso da genética no debate entre difusão cultural vs difusão démica para a introdução da agricultura. Mais no campo da antropologia discutem-se as repercussões genéticas das assimetrias de género em diferentes culturas.
Na segunda parte aprende-se sobre o legado genético nos portugueses de variados povos que influenciaram o nosso passado como os migrantes paleolíticos, os primeiros agricultores, escravos oriundos da África Subsariana, os mouros do Norte de África ou os judeus sefarditas. Finalmente aprendemos qual foi a nossa influência genética nos territórios ligados à expansão marítima, como Cabo Verde, Moçambique, Angola, Brasil, Índia, entre outros.
Por abordar ficam outros temas que talvez pudessem ter sido discutidos, como por exemplo se será possível identificar sinais genéticos de outras eventuais migrações mais ou menos bem documentadas, como a dos Iberos, Celtas ou Romanos. O aspecto clínico fica de fora da obra, não sendo mencionado o interessante caso da alta frequência da paramiloidose em algumas localidades Portuguesas do litoral norte (e.g. Póvoa de Varzim) e que se supõe resultarem da forte influência genética de invasores Normandos em comunidades particularmente endogámicas fundadas na Idade Média.
Creio que qualquer leitor encontrará pelo menos um tema novo entre assuntos cativantes raramente abordados anteriormente e que resultam da frutífera carreira de investigação da autora Luísa Pereira, no IPATIMUP. Este livro constitui uma primeira abordagem, bem referenciada, ao passado do ponto de vista biológico. Oferece um contraste inovador com a arqueologia e historiografia clássicas, debruçadas essencialmente em aspectos do foro cultural ou económico.
Duma forma geral “O Património Genético Português – a história humana preservada nos genes” é um “page turner” indispensável em qualquer boa biblioteca caseira.
Começo por referir que este post resulta de uma sugestão de um leitor do blogue, Rui Gomes Coelho, que enviou há uns dias a noticia de um site recentemente criado.
Confrontado com a dispersão de dados de arqueobotânica por diversos meios científicos, o Maryland Archaeological Conservation Laboratory, resolveu desenvolver uma plataforma - o referido site - para disponibilizar ao público dados de arqueobotânica referentes a esse estado americano.
O resultado deste esforço é extremamente interessante. O site contém glossários, textos didácticos, sínteses interpretativas e uma base de dados. Esta base de dados é muito prática, permitindo pesquisas simples ou combinadas, por espécies (sementes e madeiras), sítios arqueológicos, regiões e ainda por períodos cronológicos.
Aconselho veementemente que passem algum tempo a explorar o site.
Não resisto em deixar aqui o repto: para quando um projecto destes para o nosso país? Uma base de dados que permita a qualquer pessoa em qualquer local do mundo - por isso mesmo terá de ser, no mínimo, bilingue - aceder a toda a informação de Arqueobotânica referente a Portugal.
Agradeço a Rui Coelho a sugestão e fico à espera de outras mais por parte dos nossos leitores. O mail para o fazerem está na barra lateral à vossa direita.
Não resisto a deixar aqui mais uma mensagem cerca deste tema. Trata-se de uma citação da monografia do extinto CIPA onde foram realizadas experiências nesta área (o realce da primeira frase é meu):
"Paradoxalmente, o maior problema da palinologia de solos “secos” é que há sempre pólen! Mesmo em quantidades ínfimas, com os métodos de hiperconcentração desenvolvidos pela escola francesa da “palinologia arqueológica”, é sempre possível obter uma concentração polínica. O problema é saber que pólen estamos a observar — contaminação moderna?; pólen mais antigo que o depósito, herdado da matriz sedimentar?; pólen contemporâneo da deposição do sedimento? — tudo é concentrado, misturado, e ali está, na lâmina de microscópio, à espera de ser observado.
Quando em presença de espectros polínicos muito oxidados, como é frequente em sedimentos arqueológicos arejados, de matriz silto-arenosa seca, torna-se muitas vezes óbvia a erosão dos grãos de pólen, quer observada directamente na superfície dos grãos, quer inferida pela exclusiva ocorrência de pólen muito resistente e ausência de pólen frágil.
Qual o significado paleoecológico da “meia-dúzia” de grãos aí identificados e contados? Mesmo assumindo que são todos contemporâneos da deposição (o que não há maneira de provar), que percentagem representam relativamente ao espectro polínico original? Qual a sua relação com a paisagem coeva dos horizontes arqueológicos?
Das experiências já realizadas sobre contextos deste tipo, somos obrigados a concluir que, em condições de oxidação, os resultados polínicos não são fiáveis. É sobretudo importante pensar na capacidade imagética da palinologia, que nos fala simultaneamente da presença e da ausência de protagonistas vegetais na paisagem, capacidade que se perde quando há destruição diferencial do pólen. Olhar um conjunto polínico profundamente distorcido de pouco vale. (Mateus et al, 2003: 146)"
MATEUS, J. E.; QUEIROZ, P. F.; VAN LEEUWAARDEN, W. (2003). O Laboratório de Paleoecologia e Arqueobotânica – uma visita guiada aos seusprogramas, linhas de trabalho e perspectivas. In MATEUS, J.E.; MORENO-GARCÍA, M. (eds) – Paleoecologia Humana e Arqueociências. Umprogramamultidisciplinarpara a arqueologiasob a tutela da Cultura. IPA (Trabalhos de Arqueologia; 29), Lisboa: p.106-188.
Este blogue pretende divulgar o que se faz em Portugal ao nível das arqueociências, fomentando o debate científico e promovendo o conhecimento dos avanços globais nas ciências e tecnologias aplicadas ao património e em especial na Arqueologia Ambiental.
Pode fazer sugestões de mensagens, eventos ou enviar textos através do mail arqueociencias.blog@gmail.com