sábado, 12 de dezembro de 2009

Um dos melhores exemplos da aplicação das arqueociências é vermos o que uma cooperação multidisciplinar consegue alcançar em termos da construção de conhecimento. Compreender a história dos nossos antepassados passa necessariamente por investigações que abranjam várias linhas de evidência. O documentário Becoming Human é um exelente exemplo de como se pode passar esse conhecimento intrinsecamente multidisciplinar para o público. Aqui ficam os links para as três partes do documentário para quem estiver interessado.




sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Bolsa para Investigador Associado (Reino Unido)

Para quem estiver interessado na Idade do Bronze.

Arqueopalinologia

Na semana passada, num colóquio realizado em Braga (aqui anunciado com antecedência) Luis Gómez-Orellana fez uma muito interessante e pertinente comunicação onde reviu criticamente os métodos utilizados para a realização de reconstituições paleoecológicas. A mesma suscitou diversas questões entre os demais participantes no colóquio pois o autor afirmou a inadequabilidade de diversas técnicas para a reconstituição de paisagens antigas, entre as quais a antracologia e a arqueopalinologia. Centro-me aqui somente na segunda (a primeira ficará para outra ocasião).

É hoje evidente que a Arqueopalinologia deve ser encarada com muitas cautelas. Várias questões apontadas por Gómez Orellana, que eu subscrevo na íntegra, servem para chamar à atenção das limitações desta técnica. Saliento as seguintes:

- A recolha de dados polínicos em jazidas arqueológicas está fortemente condicionado pelo tipo de contextos sedimentares e pelas realidades arqueológicas disponíveis;

- Os contextos sedimentares "secos" são propícios à migração vertical do pólen;

- Os contextos sedimentares "secos" são mais susceptíveis de degradar o pólen, ocorrendo fenómenos de preservação diferencial;

- Os contextos arqueológicos encontram-se por inerência afectados antropicamente;

- Nos contextos arqueológicos, a deposição polínica acontece sem qualquer ritmo calculável, e

- Frequentemente as sequências são incoerentes.

Como tal, a escolha dos contextos a ser amostrados deve ser criteriosa e limitar-se unicamente a níveis orgânicos e a paleosolos bem preservados, ainda assim com um forte controlo da tafonomia.

Por outro lado, a interpretação destes contextos contém também diversos problemas, não podendo ser encarada da mesma forma que as sequências polínicas obtidas em turfeiras e outros contextos similares. Os dados da arqueopalinologia referem-se aos locais associados à acção do Homem e mesmo assim os espectros obtidos são difíceis de interpretar.

Exige-se cautela. Aconselho que a leitura de trabalhos de arqueopalinologia comece por um exame minucioso do capítulo da Metodologia.

Termino esta mensagem com um exemplo caricatural que me foi dado há uns tempos: imaginem que o local no qual se obtém a sequência polínica encontrava-se, no tempo de ocupação da jazida, à sombra de um belo, porventura isolado, carvalho. A sequência polínica obtida daria uma imagem muito interessante da paisagem envolvente: um povoado rodeado de um enorme carvalhal!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Conference, Loughborough University, UK, 22nd-23rd April 2010

Para quem gosta de Mar, aqui vai uma Conferência sobre Ecologia Costeira no presente e no passado!


Call for Papers - Conference, Loughborough University, UK, 22nd-23rd April
2010:
All at Sea? Synergies between past and present coastal processes and ecology
Organisers: Dr D. B. Ryves, Professor N. J. Anderson & Dr P.J. Wood

Coastal zones are dynamic systems. They are high-energy environments
exhibiting rapid spatial and temporal change and are constantly evolving. The
complex interaction of physical processes operating on both short (e.g. tides,
fluvial input of nutrients and sediment) and longer-term timescales (e.g.
climate & sea level change) form the driving force for many of the biological,
chemical and sedimentological processes that occur in these systems. Coastal
zones are unique in their steep gradation of conditions (e.g. salinity) which
produce distinctive ecological communities.

In recent years human impact has seriously altered many of these coastal
systems resulting in issues such as eutrophication, over-exploitation of
resources and pollution catching media attention. Such major anthropogenic
changes make it increasingly difficult to understand the already complex
natural physical processes and ecological changes operating within the coastal
zone. These complex issues must be dealt with before we can begin to use
these archives as palaeo-records for understanding the past, for which they
offer great potential to integrate the independent terrestrial and marine
records of past climatic and environmental change. By understanding the past
in these terms we can provide valuable context for investigating recent and
future change.

This conference aims to address the following questions:
1. How do physical, biological and chemical processes in the coastal zone
impact ecological communities and how do these communities change and
evolve over time?
2. Can we successfully isolate natural environmental change from human
impact in modern and recent coastal systems?
3. How can we most effectively apply complex contemporary ecological
information to improve our interpretation of palaeo-records?
4. How can we integrate complex contemporary ecological data with time-
averaged palaeo-data to improve policy and management of coastal ecological
systems and future predictions under changing climate?

This conference will be composed of four sessions entitled:
1. The contemporary coastal zone: physical, biological and chemical impacts
on ecology.
2. Assessment of the strength of climatic and environmental change
inferences from palaeoecological investigations.
3. Formation of the palaeo-record in high-energy environments: chronology,
taphonomy and diagenesis
4. Integrating contemporary and palaeo datasets from the coastal zone:
synthesis and visions for the future.

Abstract deadline: 31st January 2010
For more information and registration details see:
(http://www.lboro.ac.uk/departments/gy/allatsea/) or e-mail
allatsealboro@gmail.com

Wood Anatomy of Tree Rings

Regressado da 9th International Winter School "Wood Anatomy of Tree Rings" escrevo para salientar o quanto profícua foi a participação neste curso.

Aconselho todos aqueles que se interessem por anatomia de madeiras a participar neste curso, leccionado por Holger Gärtner e Fritz Schweingruber (já uma lenda nesta área), onde se aprende não só o básico para a identificação de madeiras mas também princípios de dendroecologia que poderão ser muito interessantes para aplicar às realidades arqueológicas (existem alguns estudos interessantes nesta área).

Saliento que também para quem já tem conhecimentos de identificação de madeiras este curso é muito proveitoso. Participaram nele, como alunos, pessoas com vários anos de experiência na área. Num total de 18 alunos, contavam-se pessoas de 11 nações diferentes (!!), constituindo um importante espaço de partilha de conhecimentos e experiências.

A razão pela qual não publicitei o evento no blogue deveu-se ao facto das inscrições já estarem fechadas quando este blogue teve inicio. No entanto, entre 11 e 17 de Abril irá decorrer a 10ª edição do curso, na mesma localidade, Klosters Dorf, no meio das montanhas suíças.


As boas noticias não terminam aqui. Na página pessoal de Gärtner, é anunciado que a 11ª edição decorrerá no Inverno do próximo ano em Lisboa. Vejam em: http://www.wsl.ch/staff/holger.gaertner/

Por experiência própria posso dizer que este curso é garantia de aprendizagem.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Em Flores, Sê Floresiano?

Mais uma acha foi lançada à fogueira que é a discussão filogenética do Homem de Flores. Recentemente, alguns cientistas publicaram um artigo na Significant, no qual estabeleceram uma comparação entre algumas dimensões físicas do LB1, um espécime fóssil encontrado na ilha de Flores em 2003 por uma equipa australiana, e outros hominídeos conhecidos. O objectivo foi muito simples: produzir um diagrama de dispersão a partir de alguns índices físicos e verificar a sua proximidade relativa.

Para aqueles que não estão familiarizados com este achado, é necessário mencionar algumas das características mais fascinantes do fóssil do Homem de Flores. Primeiramente, a sua capacidade craniana está mais perto dos australopitecíneos do que de qualquer homínideo. Isso não seria surpreendente não fosse o facto desta população de Flores ter vivido aí nos últimos 100 mil anos até se extinguir há cerca de 13 mil anos e a data da extinção do último australopitecíneo ter ocorrido há mais de 2 milhões de anos. Em paralelo, a sua estatura diminuta a rondar o metro de altura granjeou-lhes a alcunha de hobbit. Pensa-se que a sua baixa estatura pode estar relacionada com o nanismo insular, um fenómeno documentado em outros mamíferos de Flores e que consiste na redução de tamanho corporal.

Surgiram duas teorias filogenéticas distintas imediatamente a seguir à publicação dos achados. A primeira apontando uma causa patológica para as características físicas observadas e defendendo que o hobbit é na verdade um sapiens moderno, e a segunda defendendo uma nova espécie para o fóssil. As últimas investigações têm reforçado a segunda hipótese determinando que o ombro, o pulso e o pé do Homem de Flores não são semelhantes ao do Homem moderno.

O novo estudo demonstra que os índices cranianos do Homem de Flores se enquadram num grupo constituído por outros hominídeos extintos como o erectus, heidelbergensis e os neanderthalensis (outras duas “espécies” muito discutidas). Um segundo grupo é composto pelos humanos modernos e o terceiro grupo inclui os humanos modernos com microcefalia, uma condição que poderia explicar a reduzida capacidade craniana da população de Flores.

Uma segunda parte do novo estudo produziu um diagrama de dispersão da massa corporal e do índice de massa corporal de duas populações de pigmeus e do LB1. Tal como no primeiro estudo, este demonstrou ser um outlier.

A partir dos seus resultados, os autores rejeitam a hipótese de que o Homem de Flores seja um Homem moderno microcefálico e sugerem duas possibilidades para a sua origem filogenética: 1) tratar-se de um caso de nanismo insular a partir do Homo erectus; ou 2) tratar-se de um caso de migração a partir de África de uma espécie desconhecida ainda mais antiga. Eis a questão, o Homem de Flores sofreu as mesmas pressões ambientais deoutros mamíferos da ilha e reduziu o seu tamanho: tornou-se Floresiano? Ou a sua reduzida estatura era pré-existente à sua chegada à ilha?

A descoberta de outros fósseis desta população e a eventual extracção de ADN mitocondrial poderá esclarecer acerca da verdadeira origem filogenética do hobbit. Lamentavelmente ou não, e tendo como base as problemáticas semelhantes que abundam na Paleoantropologia, novos resultados têm tendência para criar mais perguntas do que respostas. Por falar nisso, gostaríamos de saber algumas das vossas "respostas" para este caso!

sábado, 28 de novembro de 2009

Ossos do ofício: que fazer com eles?

No último congresso da British Association for Biological Anthropology and Osteoarchaeology em Setembro passado, a primeira palestra foi proferida por Mike Parker Pearson, responsável pelas recentes escavações efectuadas em Stonehenge. No final, o orador alertou para o final do prazo concedido aos investigadores para estudo dos restos humanos ali recolhidos, que serão então inumados. A equipa de Stonehenge pretende a prorrogação do prazo e argumenta que a importância dos achados deveria impedir a sua re-inumação. Do outro lado da barricada, exigindo activamente o enterramento imediato das ossadas estão grupos ligados ao neo-druidismo celta que se consideram descendentes das populações que construíram Stonehenge. Portanto, nesta história estão presentes os ingredientes necessários a um debate fascinante a ter lugar no Reino Unido.

A questão da re-inumação dos achados arqueológicos não diz respeito apenas aos territórios para além do Canal da Mancha. Também em Portugal esta questão é por vezes discutida informalmente, apesar dos materiais não serem normalmente alvo de exigências semelhantes às dos neo-druidas do Reino Unido. Porém, as sucessivas escavações de necrópoles realizadas no nosso país contribuíram para a acumulação de vastas colecções de esqueletos humanos cuja reserva implica necessidades logísticas às quais a administração central não tem conseguido corresponder. Tendo em consideração este cenário, algumas pessoas questionam-se se a re-inumação em local identificado dos materiais já estudados não é uma alternativa viável ao depósito de ossadas em reservas frequentemente desadequadas. No entanto, este procedimento levanta inúmeras questões de delicada resolução.

Um dos problemas reside na importância dos achados. Por exemplo, a re-inumação de ossadas provenientes de uma necrópole moderna não suscitaria uma oposição tão firme como no caso da ossada de um Homem de Neandertal com 40 mil anos. Um achado deste tipo é tão raro e importante que ninguém se atreveria a recomendar a sua inumação. A acontecer, a re-inumação não pode então visar todos os materiais.A raridade deve ser uma das variáveis incluídas nesta equação, e está intimamente ligada à importância científica, cuja determinação é complexa e subjectiva. Então como deve ser feita a selecção das colecções a re-inumar?

Em caso de re-inumação, esta deverá repetir o enterramento ritual – quando conhecido – ao qual o indivíduo foi originalmente sujeito? No fim de contas, na maioria dos casos lidamos com indivíduos que fizeram questão de ser alvo de um ritual específico de carácter religioso. O respeito por esses desígnios deverá ser tido em consideração? E de que forma isso interferiria na re-inumação dos restos humanos garantindo a preservação necessária a novas intervenções científicas? Neste caso, os ossos deverão ser isolados do solo ambiente de forma a garantir a sua preservação pós-deposicional, por exemplo recorrendo a contentores plásticos, preceito que obviamente não faz parte de nenhum dos rituais funerários do Passado.

A questão da re-inumação dos achados humanos arqueológicos é de difícil resolução. Queremos saber se a consideram uma opção viável, e em caso afirmativo, em que moldes deverá efectuar-se. Deixem a vossa opinião e votem na caixa da barra lateral!